Equipamento simula o princípio da vida na Terra
A ciência vai deixando claro que a vida partiu da água. E não em qualquer lagoa sob as intempéries de 4 bilhões de anos atrás, mas no fundo do mar, como uma máquina criada em Nagaoka, Japão, está ajudando a provar. O aparelho foi projetado por Koichiro Matsuno, da Universidade Tecnológica de Nagaoka. O reator de fluxo reproduz os ciclos de aquecimento e resfriamento das fontes hidrotermais. Essas fontes no fundo do oceano funcionam como gêiseres. O calor de bolsões de lava próximos do assoalho marinho aquece a água em câmaras. A pressão aumenta e o líquido é expelido em jatos. Parte da água, acredita Matsuno, retorna para a boca da fonte hidrotermal. O ciclo se reinicia, repetindo-se indefinidamente. Adicionem-se alguns milhões de anos e da panela pode sair a vida.
Parece uma estratégia duvidosa de culinária, mas pode ter funcionado para engrossar o caldo fino da vida. A chave está na repetição, no esquenta-esfria. Sem ela, não se formariam as substâncias conhecidas como polímeros, que se caracterizam pelo encadeamento de moléculas padrão. O ingrediente básico de Matsuno foi glicina. É um dos 20 aminoácidos que entram na composição das proteínas. Na sua panela de pressão high-tech, ele obteve substâncias mais complexas, com até seis blocos de glicina.
Matsuno usou também um tempero na receita. No caso, um sal de cobre, para facilitar as reações. O prato que ele apresenta, na revista Science de hoje, é mais um indício de que a vida pode ter surgido nas fontes termais. Acredita-se que ela não existiria sem o passo decisivo da polimerização. Os primeiros organismos a surgir teriam sido "descendentes» dessas moléculas mais e mais complexas. Cientistas como o norte-americano Carl Woese acham que eles eram muito parecidos com as bactérias termófilas. Ainda hoje, esses microrganismos colorem as beiradas dos gêiseres, como no parque Yellowstone, em Wyoming, EUA.
As termófilas são tão importantes e tão diferentes de todos os outros seres vivos que Woese as classifica num reino à parte, o das arqueobactérias. Para ele, o mundo da vida teria só mais dois reinos: o das verdadeiras bactérias (eubactérias) e o do resto (eucariontes), onde se amontoam fungos, plantas e animais. Com tantas bactérias na origem da vida, talvez o mais correto seja a ciência dizer: dos bacilos viemos, aos bacilos voltaremos. Se a segunda parte da frase não estiver certa para a espécie, ao menos vale para cada indivíduo.(por Marcelo Leite, AF)