Faísca na sopa de moléculas
Grupo japonês conseguiu pela primeira em laboratório despertar os componentes básicos da vida para... a vida a partir de um reactor para simular os géiseres submarinos, aminoácidos e cobre q.b.
Há muito que os cientistas perseguem o segredo da origem da vida. A ideia hoje mais difundida e aceite postula que tudo terá começado há milhões de anos a partir de uma sopa de moléculas. O problema tem sido explicar de forma aceitável que tipo de "faísca" terá produzido nessa mistura inicial a centelha da vida. Até hoje não houve uma resposta clara. Mais propriamente até sexta-feira passada.
Na última edição da revista Science, publicada justamente na sexta-feira, um grupo japonês anunciou ter descoberto a natureza dessa tal "faísca", depois de muitos anos na pista das fontes hidrotermais e dos géiseres submarinos. Mas, ao contrário do que esperavam, não precisaram de equipamentos tecnológicos demasiado sofisticados. Na verdade, só há dois anos, depois de simplificarem a máquina na qual tentavam simular o início da vida na Terra, conseguiram recriar a hora H, segundo afirmam no artigo publicado na revista científica.
Koichiro Matsuno, da Universidade de Tecnologia de Nagaoka, e a sua equipa construíram um sistema artificial para simular o ambiente submarino que lhes serviu de pista e conseguiram produzir alguns dos componentes moleculares de que são feitas as proteínas essenciais à vida.
"Há milhares de anos que o homem se pergunta o que é vida. Mas a verdadeira questão não é essa, deveríamos antes perguntar onde começou a vida", explicou Matsuno à Imprensa, sublinhando: "Há dez anos que se pensava que as fontes hidrotermais teriam sido o verdadeiro berço da vida na Terra, mas nós conseguimos, finalmente, prová-lo."
No artigo que escreveu na revista Science, o investigador japonês descreve o processo utilizado na experiência, chamado polimerização, no qual algumas moléculas complexas (neste caso, os oligopeptidos, que entram na composição das proteínas) conseguem formar-se a partir de aminoácidos simples.
No início da vida na Terra, este processo agora simulado com sucesso em laboratório, deverá ter-se repetido inúmeras vezes "através dos ciclos de calor em condições de humidade e secura, através dos ciclos diurnos e nocturnos e com a ajuda das marés", escreveram os autores.
A máquina construída pelos cientistas japoneses serviu para simular os momentos de aquecimento e arrefecimento que se sucedem em ciclos nas fontes hidrotermais submarinas, no contacto entre a água ou o vapor quente do géiser e a água fria do oceano.
Neste balançar permanente entre o calor e o arrefecimento, as moléculas sofrem processos químicos sucessivos, tal como aconteceu na Terra há milhões de anos, quando a vida despertou, segundo defendem o investigador japonês que idealizou a experiência.
Uma das chaves do sucesso do trabalho realizado pela equipa de Matsuno foi a adicção no processo de iões de cobre, um dos muitos minerais presentes no solo oceânico, assegura o investigador.
Matsuno, de 58 anos, procurava há três décadas a resposta que agora encontrou, mas só há dois anos conseguiu construir a máquina que lhe permitiu chegar até aqui.
In "O DN"
9 de Fevereiro de 1999